sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Relatividade

O que é um grão de poeira?

Depende do ponto de vista:

No chão, quase nada;

No olho, tudo o que existe.

Andante



A rua passava pela menina

Deixando suas marcas, aromas e cores.

O mendigo passava,

A mulher passava,

A criança, o cão, o homem sem nome passavam

Todos deixando suas dúvidas

Grandes dúvidas que ela carregava

E suas certezas...

Bem, a menina não tinha certezas.

Passavam pela menina as vitrines

E guardavam seus desejos;

Passavam os carros

Levando a menina para lugares que ela jamais iria.

Passavam as calçadas,

O asfalto, os bueiros,

O lixo dos cantos passava por ela

Que carregava parte da cidade.

A menina levava o resto de sonho do pedaço de jornal,

O resto de fome da comida no lixo,

O resto de vício jogado pela mão descuidada, ainda aceso.

Passavam olhos e seus segredos,

Passavam mãos, pernas, braços, sorrisos e lágrimas.

Toda a cidade passava pela menina

Suas luzes e cinzas;

Dores e restos,

Tudo lhe atravessava os poros;

A sinalização passava e não lhe indicava o caminho,

A estátua passava e não lhe via,

Então a praça passou por ela

E ficou uma flor em seu cabelo.

sexta-feira, 27 de agosto de 2010



Não quero que esse amor se desfaça
Nas brumas da incerteza
Nem que se esmoreça
ante o punho frio da distância.
Quero sim que permaneça
A dançar pela cidade
Embevecido de saudade
Muito mais que só lembrança.
Porque a dor que dele nasce
Alimenta a minha alma
Que louca, doce e calma
Assim se mantém viva.
E desta forma essa tua amiga
Que tanto te espera e ama
Te colori nesta cama
Te consagra em sua vida.

segunda-feira, 5 de abril de 2010




Desço a rua e a noite vem comigo

Apenas a desesperança preenche os becos vazios.

Em um lugar qualquer, risos cortam a noite

Como facas afiadas

E buscam meus ouvidos

Rasgando o tempo, o espaço,

E outras coisas que um dia fizeram sentido.

São risos de escárnio, quase desesperados

Procuram insanamente demonstrar felicidade

Mas ela vem falsa

Imediata, vulgar.

Não enfeitam os rostos

Também vazios,

Mas retorcem a boca e calam os olhos.

Vejo as flores murchas pelo caminho,

Vejo sombras atrás das cortinas,

Há garrafas vazias sobre as mesas,

E vazios corações

E olhos vazios de horizonte.

Não há mais nada pelas ruas

Além da minha própria sombra

Por um momento me sinto só

Mas logo vejo que não poderia estar melhor acompanhada.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010




Colha o dia de hoje, não confies no futuro!

Não indagues muito: é cruel querer saber que fim nos reservaram os deuses;
Nem fiques consultando os números babilônios.
É melhor simplesmente lidar com aquilo que cruzar o seu caminho.
Pode ser que Júpiter te conceda muitos invernos,
Ou somente este último,
Como expressa agora o mar tirreno ao bater nas rochas.
Sê sensato, bebe teu vinho e abrevia as longas esperanças,
Pois o tempo foge enquanto aqui parlamos.
Colha o dia de hoje – não te fies no futuro!
Podemos sempre ser melhores, basta pensarmos melhor. (Horácio)

sábado, 21 de novembro de 2009




Eu pretendia que fosse lindo

Como uma noite cheia de estrelas cadentes

A noite é densa, e as estrelas se foram

E eu estou aqui segurando minhas próprias mãos.

Eu pretendia que fosse solto

Como fitas ao vento: solto e colorido

Seria belo como soltar pássaros no céu

Mas no fim não havia pássaros...

Eu só queria tocar sua alma

Com a ponta dos meus dedos

Mas só encontrei o vazio

De promessas vãs...

Eu pretendia que fosse doce

E o que me mata, mais que o meu amor

São essas minhas pretensões

Eu pretendia que fosse pra sempre

Mas simplesmente foi.

domingo, 18 de outubro de 2009

ÚLTIMA LEMBRANÇA - Autoria: Luiz Menezes - Interpretação: Os Fagundes


Eu hei de amar-te sempre, sempre além da vida
Eu hei de amar-te muito além do nosso adeus
Eu hei de amar-te com a esperança já extinguida
De que meus lábios possam ter os lábios teus.

Quando eu morrer permita Deus que nessa hora
Ouças ao longe o cantar da cotovia
Será minha alma que num canto triste chora
E nessa mágoa o teu nome pronuncia.

Eu viverei eternamente nos cantares
Dos pobres loucos que dos versos fazem o ninho
Eu viverei para glória dos pesares
Onde quase sucumbi nos teus carinhos.

Eu viverei no violão que a noite tomba
Ante a janela da silente madrugada
Eu viverei como uma sombra em tua sombra
Como poesia em teu caminho derramada.

Pois nem o tempo apagará nossos amores
Que floresceram de ilusão febril e mansa
Quando eu morrer, eu viverei nas tuas dores
Mas te levando em minha última lembrança.