O que é um grão de poeira?
Depende do ponto de vista:
No chão, quase nada;
No olho, tudo o que existe.
Uma palavra, um momento, Um sorriso, acalento, Viver, sonhar, chorar. Um par de olhos, insensatez, Mesmo ocorrido apenas uma vez, Uma imagem a se colecionar.
O que é um grão de poeira?
Depende do ponto de vista:
No chão, quase nada;
No olho, tudo o que existe.

A rua passava pela menina
Deixando suas marcas, aromas e cores.
O mendigo passava,
A mulher passava,
A criança, o cão, o homem sem nome passavam
Todos deixando suas dúvidas
Grandes dúvidas que ela carregava
E suas certezas...
Bem, a menina não tinha certezas.
Passavam pela menina as vitrines
E guardavam seus desejos;
Passavam os carros
Levando a menina para lugares que ela jamais iria.
Passavam as calçadas,
O asfalto, os bueiros,
O lixo dos cantos passava por ela
Que carregava parte da cidade.
A menina levava o resto de sonho do pedaço de jornal,
O resto de fome da comida no lixo,
O resto de vício jogado pela mão descuidada, ainda aceso.
Passavam olhos e seus segredos,
Passavam mãos, pernas, braços, sorrisos e lágrimas.
Toda a cidade passava pela menina
Suas luzes e cinzas;
Dores e restos,
Tudo lhe atravessava os poros;
A sinalização passava e não lhe indicava o caminho,
A estátua passava e não lhe via,
Então a praça passou por ela
E ficou uma flor em seu cabelo.

Desço a rua e a noite vem comigo
Apenas a desesperança preenche os becos vazios.
Em um lugar qualquer, risos cortam a noite
Como facas afiadas
E buscam meus ouvidos
Rasgando o tempo, o espaço,
E outras coisas que um dia fizeram sentido.
São risos de escárnio, quase desesperados
Procuram insanamente demonstrar felicidade
Mas ela vem falsa
Imediata, vulgar.
Não enfeitam os rostos
Também vazios,
Mas retorcem a boca e calam os olhos.
Vejo as flores murchas pelo caminho,
Vejo sombras atrás das cortinas,
Há garrafas vazias sobre as mesas,
E vazios corações
E olhos vazios de horizonte.
Não há mais nada pelas ruas
Além da minha própria sombra
Por um momento me sinto só
Mas logo vejo que não poderia estar melhor acompanhada.

Eu pretendia que fosse lindo
Como uma noite cheia de estrelas cadentes
A noite é densa, e as estrelas se foram
E eu estou aqui segurando minhas próprias mãos.
Eu pretendia que fosse solto
Como fitas ao vento: solto e colorido
Seria belo como soltar pássaros no céu
Mas no fim não havia pássaros...
Eu só queria tocar sua alma
Com a ponta dos meus dedos
Mas só encontrei o vazio
De promessas vãs...
Eu pretendia que fosse doce
E o que me mata, mais que o meu amor
São essas minhas pretensões
Eu pretendia que fosse pra sempre
Mas simplesmente foi.
Eu hei de amar-te sempre, sempre além da vida
Eu hei de amar-te muito além do nosso adeus
Eu hei de amar-te com a esperança já extinguida
De que meus lábios possam ter os lábios teus.
Quando eu morrer permita Deus que nessa hora
Ouças ao longe o cantar da cotovia
Será minha alma que num canto triste chora
E nessa mágoa o teu nome pronuncia.
Eu viverei eternamente nos cantares
Dos pobres loucos que dos versos fazem o ninho
Eu viverei para glória dos pesares
Onde quase sucumbi nos teus carinhos.
Eu viverei no violão que a noite tomba
Ante a janela da silente madrugada
Eu viverei como uma sombra em tua sombra
Como poesia em teu caminho derramada.
Pois nem o tempo apagará nossos amores
Que floresceram de ilusão febril e mansa
Quando eu morrer, eu viverei nas tuas dores
Mas te levando em minha última lembrança.